quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


De branco veio o brilho no olhar
De branco o sorriso apressado
De branco seu abraço apertado
De branco a saudade abafada
De branco a vontade cantada
De branco as palavras amadas
De branco palavra afirmada
De branco nós
De branco o desejo
De branco beijo
De branco felicidade
De branco querendo ficar, sem partir, sem seguir, indo para voltar
De branco depois
De branco separados
De branco o descaso
De branco a dor
De branco sem estar
De branco buscando, olhando, teimando ao ponto de sufocar.
De branco chorando e sofrendo, voando pra encontrar
O que possa confortar quem já não tem mais a quem amar.
25/02/2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Além do que se sente


Pediram-me para escrever sobre a Alegria. Ou seria com alegria? Reli meus escritos com muita atenção e busquei, mesmo nas entrelinhas, a alegria e realmente n achei. Palavras tristes. Saudades. Desejos não satisfeitos. Uma pitada de tristeza, de solidão. Sentimentos fortes. Mas e a alegria? Sinto alegria quando escrevo, por mais que sejam momentos de muita dor, mas sinto alegria em reunir as palavras, todas juntas, umas sobre as outras, fluindo numa corrida incessante. Pois bem, pensei então em escrever mais um conto. Um conto de menina. Uma menina alegre. Criar um personagem com alegria. Criança ou adulto. Preto ou branco. Perto ou longe. Mas havia de ser alegre. Como não achei personagem em minha cabeça, pensei em procurá-lo nas ruas, praças de alimentação, pontos de ônibus, banca de revistas... Nada. Será que esse personagem não existe? Alegria... Alegria... Alegria do palhaço? Alegria de criança traquina comendo jujubas? Alegria de quem recebe o seu primeiro salário? Alegria da mãe na hora do parto? Alegria insana? Alegria do gozo suado? Alegria da chegada à sua cidade? Alegria, qualquer alegria? Segundo Michaelis alegria significa “contentamento, prazer moral, acontecimento feliz”. “Prazer moral”? Prazer é gosto, satisfação, gozo. Mas “moral”? Moral: “relativo à moralidade, aos bons costumes, que procede conforme a honestidade e à justiça, que tem bons costumes”. Quem disse que honestidade, bons costumes e justiça sempre proporcionam alegria? Ainda mais gozo! Essa é boa! Justiça. “Ação de reconhecer os direitos de alguém à alguma coisa, de atender às suas reclamações, às suas queixas, etc.” Mas veja bem. Quem reclama, traz queixa, está descontentado e busca o contentamento, a alegria. E a recebe se você faz “justiça”. Pois então a alegria não é sua. É do outro que vai embora, satisfeito. E onde fica a alegria compartilhada? Alegria de um só não me agrada. Alegria existe para contagiar. Como se fosse um vírus insano, devastador. Alegria que promove o sorriso limpo, aberto. Alegria que permite o abraço, o beijo, o calor. Alegria que liberta, que permite. Alegria em ser, em querer, em ter, em saber. Em alegrar.
(24/12/2007)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Tereza


Me sinto forte
Forte e leve como o ar, a água, o mar
Mulher de sorriso largo, dentes fortes, coração limpo e cheio
Vivo a sentir a intensidade
Meu sangue corre rápido
Minha respiração acelera cada vez que te vejo
Corro, brinco, grito, sussurro
Acordo louca
Cheia de vida e de querer
Um querer que não tem fim
Abraço forte, como muito
Abro-me inteira a espera da sua carne, do seu cheiro, do seu peso
Poros abertos, essa sou eu
Olho para o céu azul de um dia ensolarado
Assim fico muito mais feliz, jogada ao chão
Sorrindo longamente dentro do meu mundo mágico onde amo cada vez mais
Onde, quando, quem, como, qual e por que
Nada disso importa
Não me questione
Venha comigo e plantemos resposta

13/02/09

Quando você acordar


Gabriela estava ali parada, sentada na calçada. Os olhos marejados, úmidos. Teimava em não deixar a lágrima escorre-lhe pelo rosto. O vento do fim de tarde esfriava-lhe a pele. O vestido estampado parecia deixar-lhe mais alegre, colorida, mas não estava. Sentia-se abandonada, esquecida. Olhava para a janela e a luz continuava apagada. Estava ansiosa mas paciente. O cachorro fuçava o lixo em busca de alimento. Pensou em dar-lhe algo mais. Ambos abandonados ali. Ele poderia, quem sabe, ser uma companhia para aquelas horas que demoravam a passar. Mas o cachorro se foi. Antes de descer a ladeira olhou-a rapidamente não demonstrando-lhe nenhum interesse e muito menos companhia. Pensava se estava fazendo a coisa certa. Não conseguia pensar. Esperava. A janela continuava escura. Olhou o relógio e só então percebeu há quanto tempo estava ali. Sentia as nádegas queimarem adormecidas. Negava-se ficar em pé para não correr o risco de desistir. Queria ficar ali à espera. Guardava muitas palavras e sentimentos. Precisava entregar. Mas ele não acordava. Sentiu fome. Sabia que ali perto havia um bar, haveria de ter algo saboroso, ao contrário da saliva espessa que engolia. Abriu a bolsa timidamente e contando algumas moedas concluiu que não conseguiria uma grande refeição. Se não era pra ser grande, preferia ficar ali. Tudo para Gabriela era grande. Seu desejo, seu amor, sua vontade. Eram gigantescos. Respirava forte, andava rápido, buscava muito, queria mais, muito mais. Tanto para quem era tão pequena. A fome e a brisa fria contribuíam para que o sono a enlaçasse os olhos. Mas não se permitiria dormir. Havia de estar bem alerta, pois a qualquer momento... Enfim! A luz do quarto acendeu. Respirou fundo ainda sem coragem de levantar-se. Os olhos arregalados como duas jabuticabas esperavam ansiosos que ele pousasse na janela. Ainda nada... Apenas a luz. Pensou em fazer barulho para chamar atenção. Com o coração aos pulos pegou uma lata e jogou ladeira abaixo. O titilar do alumínio no asfalto não ecoou o suficiente. E se lhe chamasse o nome? Gritaria com fervor. Amor. Paixão. Tristeza. Os olhos apontados para a janela encharcavam-se em lamento. Por que não ir à janela admirar a noite? O que custava? Não sabia como chamar a atenção. Música... Ao longe ouvia uma linda canção chegando. Olhou para a esquina e avistou um senhor em passos lentos aproximando-se com um pequeno rádio de pilhas nas mãos. Que canção linda! Nunca havia escutado. Era linda. Falava de amor. Exatamente do seu Amor. O homem parou a vê-la tão emocionada. Não disse nada, apenas admirava o brilho dos olhos de Gabriela. Foi então que se lembrou de olhar para a janela. Como pôde distrair-se tanto! Mas nada havia mudado. O homem aumentou a música. Aumentou tanto que todos poderiam ouvir. Gabriela sorriu. Agora sim conseguiria vê-lo na janela. Gritou forte o seu nome, com tanta força que sentiu a garganta rasgar. “Ouça a música! Ouça a MUSICAAAAAAAAAA!!! É PRA VC!”. Imediatamente a luz apagou. Fria. Gabriela estava fria e branca. Os olhos murcharam como as pétalas no outono. Os braços caídos não tinham mais força. As pernas tremiam fracas levando seu corpo ao chão. Sentiu o frio das pedras. Seu corpo não mais lhe obedecia. A música que ouvia agora era apenas o pulsar agonizante do seu coração. Os olhos de tão pequenos se fecharam. Parecia morrer. Não ouviu o titilar do portão que se abria. Ele veio correndo e agarrou-a em seus braços. O abraço quente em choque com o corpo frio de Gabriela. Gritava o seu nome de forma desesperada. Também queria dizer-lhe algo. Ela não ouvia. Havia estado à noite anterior na janela à espera dela. Sono reprimido, olhos caídos, choro de quem espera. Apertava-lhe o peito. Fraqueza. Gabriela não estava mais ali. Não desistiu. Aceitou ficar apenas em si.
(13/12/08)

Poesia quebrada


Sentiu a ternura da pele
O gosto do prazer em sentir-se forte
Busca os braços de quem não está ali
Cheiro de lírios
Cheiro doce, gosto amargo
O olhar que se quebra ao partir dos seus braços
Quis iniciar um novo caminho, mas a estrada já está traçada e o pedregulho afiado
Teme ser sozinho
Recomeçar com as mãos livres sem se agarrar ao troco
Pegadas vazias na areia
Deseja quebrar essa amarra que lhe suga a inspiração
E percebe que seu destino é amar
Amar o amor incondicionalmente
Mesmo que esse amor o condene à solidão de quem nunca será amado.

Parto


Encontro marcado, desejo rompido
Uma força que impulsiona mas não rompe
Suor, temor, desejo, gozo
Nada vem se ela não quebrar o vidro
Romper a gaiola essa é sua missão
Faz com força, grita, geme por dentro e treme
Treme de desejo, de raiva...
O olhar que chama não é a mão que adormece ali ao colo, morta, fraca.
Parece lhe sugar o impulso, mas não o faz
Porque o impulso não existe
É desejo, é força, é mais
Muito mais do que ela mesma pode crer
.
(nov/2008)

Casulo I


Você me fala de coisas
Simples como o nosso olhar
Não me traz flores
Mas me arranca as pétalas e as deixa caírem ao chão.
O toque sutil que só você soube ter
Falta
Falta que sinto de nós
Sentindo-me um tudo em meio a esse céu azul de encontro às árvores
Cenário para os meus delírios e sorrisos.
Menina que passa num caminhar torto
Pede abrigo
Encontra você para continuar.
(out/2008)