quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Bela andava com pressa. Maldito salto alto que não a deixava correr. "Se estivesse com minha sapatilha já tava lá!". Pra piorar a situação ainda restavam as poças enlameadas da chuva que caíra a uma hora atrás. Não podia perder o horário. Essa seria sua chance de ganhar um dinheiro, mesmo pouco é bem verdade, mas seria seu, poderia realizar a tão esperada viagem. Enfim, chegou esbaforida na porta do prédio. Nunca havia entrado num edifício tão luxuoso. Pensou em ir ao banheiro ajeitar a roupa e os cabelos mas devido ao atraso, no elevador mesmo tentou melhorar sua aparência. Percebeu um furo no ombro do casaco. "Ângela me disse que essa porcaria era nova! Me empresta esse troço furado pô!". Ficou em dúvida se tirava o casaco. A blusa que usava por baixo era discreta porém muito simples, poderia não agradar. Andava meio desengonçada com toda aquela roupa, não estava acostumada com tudo aquilo. E aliás, agradar era o que Bela não acreditava conseguir. Sentia-se feia, era pequena, cabelo maltratado, pele ressecada. Sentia-se esperta, um pouco inteligente, mas sabia que tinha muito a aprender nessa vida. O elevador parou: 17º andar. Sala 1707 era seu destino. Tava escrito no papelzinho. Tentou andar um pouco mais devagar para não demonstrar desespero, mas por dentro... O coração estava saindo pela boca. Pediram que sentasse e aguardasse a sua vez para a entrevista. Odiava ter que esperar, mas era o jeito. Balançava as pernas. Pensamento positivo. Balançava as pernas ainda mais. Pensava no dinheiro, carteira assinada, a viagem daqui a um ano. Uma hora depois chegou a sua vez. Permaneceu na sala durante vinte minutos. Quando se despediu, apertou a mão do coordenador com um tremor que nunca havia sentido. Tremendo sim, mas com um sorriso largo no rosto. Bela estava empregada. A partir de segunda-feira trabalharia naquela lanchonete americana famosa, e o melhor, dentro do shopping no centro da cidade. Seria responsável pela limpeza. Deixaria tudo limpinho, "um brinco!". Quem sabe um dia fosse promovida à cozinha? Isso planejaria depois, o importante agora era juntar seu salário e buscar seu pequeno Luiz lá no sertão do Rio Grande do Norte.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Aqui dentro


Abra a minha cabeça

E saia sem se despedir

Sua presença aqui só lateja, pulsa

Quebra meus pensamentos abruptamente

Saia

Corra de mim

Fuja pois já não suporto ter você aqui dentro

Minha dor, perca-se!

Perca-se de mim

Me livre da posse

Deixe-me dormir e sonhar

Respirar fundo sem sentir você

sexta-feira, 3 de julho de 2009


Olha o meu peixinho

nadando solto no mar

Meu peixinho amado

nunca de mim fugirá

Solta bolhinhas a todo tempo

Será que pode se sufocar?

Ai meu peixinho como queria ser você

Percorrendo esse marzão de meu Deus

sem precisar colocar os olhinhos fora do mar

Mas faça isso ao menos uma vez, por favor

Venha me olhar

Pois tenho amor pra sempre te dar

Carência é que nem fome... quanto mais a gente tenta controlar ou mesmo esquecer mais forte fica... Já a solidão... que tristeza... devia viver só, só com ela mesma. Mas sempre vive em companhia de alguém, não sabe viver desgarrada. Ultimamente agarrou-se a mim... Não sei ao certo se há parceria entre as duas, carência e solidão, mas ultimamente estão cada uma de um lado, uma mão de cada... No entanto, tenho livre as minhas pernas... posso correr, quem sabe voar, bater asas e me livrar da solidão e da tristeza.

quarta-feira, 1 de julho de 2009


Sinto-me ofegante
Passos lentos, pupilas dilatadas
Querendo subir seguindo a estrada
Pernas bambas , desejo forte
Busco o sol
Parece que vai chover...
Querendo chegar lá
Imagino-me correndo montanha acima
Mas meu pulmão não permite.
Sento no cascalho nesse momento
Sou nordestino, sou cangaço
Pele queimada, sou a coragem
Pernas bambas mas pulso ainda firme

sábado, 30 de maio de 2009


Franciele era uma menina que não gostava de escrever. Tinha uma leitura fútil, desnecessária. Gastava muito com revistas, mas nada que realmente valesse à pena. Franciele era alegre, gastava seu pouco dinheiro também com maquiagem. Pintava a boca com batom vermelho. Os olhos eram carregados de sombra brilhante. Nada muito combinado e mesmo assim sentia-se bonita. Enquanto se arrumava pra sair ligava o rádio bem alto e dançava. As amigas de Franciele sempre se aborreciam com ela. Chegava atrasada, era seu costume. Franciele era alegre. A casa era uma bagunça, a mãe reclamava. Franciele sorria. “Essa menina não arruma nada! Só quer saber de namorar!”. Franciele nem ouvia. Era uma negra formosa. Magrinha que nem um cabo de vassoura. Dizia que se gostava assim, magra como as modelos magrelas da passarela. “Toda nega tem o pandeirão! Se eu não tenho faço a diferença!”. Ela gostava de si. Naquele dia quando voltava da festa com uma amiga conheceu um rapaz. Franciele ficou bem interessada. No dia seguinte ganhou de presente um livro. Era bonito, grosso, capa dura. O título parecia difícil, mas era bonito. Mostrou para suas mãe e suas amigas. Não deram importância. Jogado ali no sofá velho da casa, o livro foi perdendo seu valor, se é que um dia lhe deram. Uma semana depois, lembrando do presente “sem graça” que ganhou enquanto ficava aos agarros com o rapaz perguntou: “Pra que mesmo você me deu aquele livro hein?”. Questionada se já havia lido, abaixou a cabeça e meio envergonhada respondeu que não. Na verdade preferia um brinco, um colar, uma calcinha nova. O rapaz interessado ainda em convencê-la explicou que era um livro interessante e poderia ajudá-la em muitas coisas. Mesmo assim Franciele fez bico. Irritou-se e deixou o rapaz ali encostado sozinho no muro. Saiu correndo com um sentimento estranho no peito. Uma mistura de vergonha e desprezo. Sentiu-se pequena. Cutucaram sua ferida. Sentia queimar. Corria pela rua chorando, não sabia para onde. Percebeu que toda a formosura que enxergava no espelho não lhe valia de nada. Pra que tanto bico pintado? Pra que tanto rebolado mesmo com o “pandeiro” pequeno demais? Era pobre, sem instrução. Ali perto tinha um córrego. Descascando o esmalte vermelho das unhas decidiu. E foi ali mesmo. Água suja, escura e fétida. Num pulo só. Olhos fechados, tapando a respiração.
30/05/09

sexta-feira, 29 de maio de 2009




Fraco era um pássaro. Não. Fraco era um passarinho. Vivia numa gaiola antiga, onde diversos outros já estiveram trancados. Hoje era a sua vez. Olhava para os lados e sua visão multiplicava. Enxergava múltiplas hastes de arame ao seu redor. Arame grosso. Acreditava ser mais forte do que aquele obstáculo mas ao se bater percebia o engano. Teve que se recompor e aceitar observar a vida dalí de dentro. A vida dos outros. Questionáva-se quanto a sua vida. O que seria dela. O que seria dele. Parado em um daqueles pauzinhos de madeira olhava ao seu redor. O vento balançava suas penas violentamente. Sentiu o arrepio junto com a fome. A sede junto com a angústia. Pensou em clamar por ajuda, mas Fraco não sabia cantar. Nunca ninguém o havia ensinado. Analisando a gaiola descobriu que havia uma portinhola bem ali à sua frente. Pensou que seria fácil. Engano. Mesmo colocando toda a força no bico, Fraco nunca conseguiria abrir a pequena alavanca da portinhola. Parado manteve-se por mais alguns segundos. Chorou. Fechou os olhos e sonhou. Será que conseguiria escapar da gaiola? Será que saberia voar? Para onde iria? Agitava-se à procura das respostas... Será que um dia mudaria seu nome?